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22/10/2013

Escuridão


Penso muitas vezes nesse tempo longínquo.
Portugal era um país ignorado e vivia nas trevas.
A sua gente, pelo menos a grande maioria, era analfabeta e demasiado limitada no conhecimento.
As pessoas desconheciam que havia mundos diferentes e outras culturas.
Viviam oprimidas e subjugadas.
Havia depois os senhores da terra.
Esses, apesar de serem os senhores, pouco mais sabiam.
Sabiam, sim, explorar os que dependiam deles.
A escuridão era total.
No País, na nossa aldeia, assim como nos cérebros.
Uma das consequências dessa situação tinha a ver com a falta de higiene nas ruas e nas pessoas – o que era tido como um estado normal.
A escola era vedada aos filhos, porque estes faziam falta nas tarefas do campo.
Se fossem do sexo feminino a coisa piorava um pouco.
Havia a ideia de que o conhecimento levava a maus caminhos.
Achava-se que quanto mais se sabia, maior seria a confusão.
O mais grave, é que ninguém se apercebia de que estava ser enganado.
Ninguém se dava conta de que poderia ser doutra forma; que seria benéfico em todos os aspectos que as coisas fossem diferentes.
Essa informação não lhes chegava.
A «escuridão» tinha a primazia.
Em termos de higiene: a nossa aldeia estava enxameada com currais, galinheiros e palheiras com animais, que desaguavam os seus detritos para as ruas.
Os habitantes procuravam o campo ou um local escondido atrás de qualquer obstáculo, um sítio para fazerem as necessidades fisiológicas, porque as casas, mesmo as mais ricas, não tinham casas de banho.
Durante a noite, usavam-se baldes que depois, de manhã, eram despejados para a rua que todos pisavam.
Vivia-se e respirava-se um cheiro nauseabundo, que ninguém estranhava.
Era assim. Era normal.
A falta de conhecimento e a escuridão em que se vivia, convinha aos governantes e a muitos outros que viviam à sombra dessa escuridão e dessa ignorância.
Alguém quer voltar atrás?
Abraço.
 
 
 
Dulce Martins
 
 
 
 

02/10/2013

A semente


 
Chegado o momento, com muita canseira e algum suor, a semente era lançada à terra.
A partir daquele momento, os olhos atentos do lavrador e /ou pequeno agricultor, não se cansavam de olhar para a sua obra.
Esperavam pacientemente, que a semente acarinhada pelo sol e pela humidade, germinasse.
O momento em que furava a terra e se mostrava era de regozijo para todos.
A partir daí, era o período de crescimento até à idade adulta, com as tarefas inerentes.
Pelo meio: mondar, sachar etc….
Chegada a altura, tudo se preparava para mais uma colheita.
A espiga já grada era cortada pelos ceifadores e imediatamente feitos molhos para, logo que fosse oportuno, ser levada para a laje e ser malhada.
Depois de limpa em dias de vento, era ainda ensacada e carregada para os carros de vacas, que a levavam para as tulhas ou lojas frescas.
Todas estas tarefas tinham que ser feitas manualmente e com muito sacrifício.
Logo que o grão estivesse em casa, ainda era preciso levá-lo ao moinho para que fosse moído e se fizesse a farinha que serviria para fabricar o pão.
Começava então uma etapa que pertencia à mulher.
– Senhora Ana! Pode amassar.
A responsável pelo forno comunitário (forneira – era assim que lhe chamavam) corria toda a aldeia e gritava a cada porta a mesma palavra de ordem.
A situação repetia-se quando era chegado o momento de tender (preparar o pão para ser cozido).
As mulheres, em grupo no forno, depositavam na pá a massa que, depois de algum tempo, saía já pão (centeio) tostadinho e com um cheiro irresistível.
Entrava em casa num tabuleiro comprido para, durante quinze dias, ser uma das bases da alimentação das famílias.
Um pão suado e temperado de sacrifícios.
Era assim que tudo se processava no tempo em que ainda não havia máquinas que facilitassem todas as tarefas do campo.
 
Abraço.


 

 
Dulce Martins


02/09/2013

Tão longe e tão perto


 
Nesta nossa aldeia alojada numa encosta solarenga da Cova da Beira, havia, como em muitas outras, gente boa, séria, simples e trabalhadora.
De sol a sol, no Verão ou no Inverno, o tempo era preenchido a trabalhar no campo, onde as costas se curvavam, as mãos calejavam e a pele tisnava.
Este mourejar dava a alguns para o sustento da família.
Do mal, o menos, para esses.
Mas para outros, os mais desprovidos da sorte, nem tanto.
Viam as dificuldades entrar-lhes portas dentro, sem conseguirem resposta para elas.
O pão e o resto, nem sempre marcavam presença na mesa onde os filhos se sentavam de barriga vazia.
O que conseguiam angariar não dava sequer para cumprir prioridades.
Pior ainda para os que andavam à jorna.
Os donos das terras nem sempre os contratavam.
A pouco e pouco, a tristeza, a incerteza e a revolta iam surgindo.
As preocupações eram visíveis nos seus rostos.
Tinha que haver uma saída!
Então e as obrigações como homens e pais?
Então e a dignidade que tinham por direito e lhes era negada?
De repente, fez-se quase silêncio em muitas famílias.
Os diálogos deixaram de ser abertos.
As conversas francas e descontraídas deram lugar a um quase murmúrio fora do normal.
Inesperadamente, umas figuras desconhecidas começaram a aparecer.
Rápidas e quase sem deixar rasto.
Tais encontros eram furtivos e fora da aldeia.
Demoravam algum tempo as conversações.
O tempo de arranjar a «fortuna» (naquela altura) que lhes exigiam para a ida «a salto» para fora do País – quase todos para a França.
Eram os passadores e seus agentes.
Ir a salto era arriscar ir para a prisão.
Os passadores prometiam o paraíso lá longe.
Mas… Quanto? Quando? Onde? 
Depois de muitos murmúrios e à boca calada:
– Amanhã às tantas horas à saída da aldeia.
Em casa, pela calada da noite, as despedidas eram rápidas.
Sem tempo para lamúrias:
– Direi qualquer coisa logo que possa.
Suspiros, ansiedade, medo.
– Um dia eu volto.
Estropiado e sem saúde?
Ou não?
Foi há 50 anos. Mas parece que foi ontem.
 
 



Dulce Martins

17/08/2013

Bem merecida


O ‘Viver Casteleiro’ é um dos meus «jornais» diários que não dispenso consultar.
É lá que procuro a proximidade com o meu passado e com a minha identidade.
É também lá que me vou mantendo informada das novidades relativas à nossa aldeia e à nossa gente.
Li no blogue, há dias, sobre a inauguração de um monumento simbólico dedicado ao Emigrante.
O meu aplauso.
Os nossos emigrantes merecem essa homenagem.
Acompanhei a saga da emigração, ao vivo e a cores.
Observei o sofrimento e a angústia das famílias que tiveram de se separar para conseguirem uma qualidade de vida melhor para si e para os seus filhos.
Tive conhecimento de como foi dura a passagem a salto (era assim que se dizia na altura).
Era feita por montes e vales.
Os homens eram largados muitas vezes sozinhos e sem orientação digna desse nome.
Passaram fome, sede, noites sem dormir, arrastando-se de cansaço.
Fizeram tudo isto porque o seu país lhes negou a oportunidade de terem uma vida digna.
Foi o último recurso para a sobrevivência.
Opção dura e dolorosa.
Só no fim de muitos anos de sacrifícios puderam voltar para os seus.
Com dinheiro, talvez. Mas muitos, também com a saúde arruinada, alguns estropiados, infelizmente.
Desenraizados e confusos.
Homenagem merecida.
Pela coragem e pela valentia.
 
 
 
 
 
Dulce Martins
 
 
 

19/07/2013

É bom ter conhecimento


Há coisas que nos chegam e nós gostamos de saber.
Todos os dias, visito o blogue «Viver Casteleiro».
É através dele que vou sabendo as novidades da minha terra.
Ontem, li um pequeno texto da Direcção do Lar que me deixou reconfortada.
É uma mais-valia ter na nossa terra uma instituição como o Lar.
É bom darmo-nos conta de que esse lar é dirigido por pessoas de bem e empenhadas em fazer o melhor que podem, em benefício de um povo que trabalhou e que merece ter o melhor.
É bom sabermos que trabalham lá profissionais preparados, a exercer com profissionalismo o que aprenderam.
É bom darmo-nos conta de que, para poderem exercer esse trabalho, têm certamente ao seu alcance, as condições necessárias.
É muito bom concluirmos que aquele lar não é apenas um depósito de «restos» humanos já sem utilidade.
É, sim, um local onde há gente que ainda é capaz de se empenhar e de ser útil, se para isso for motivada.
É muito bom sabermos que os nossos idosos são tratados com a dignidade que merecem.
Que não se sentem despejados, apenas à espera do fim.
Por mim, sinto orgulho em constatar que essa instituição poderá ser um exemplo a seguir por tantas outras.
Onde os idosos vegetam e se vêem definhar aos poucos, quais trastes velhos.
Um abraço de parabéns e incentivo a todos os trabalhadores e seus dirigentes.
Orgulhem-se da oportunidade que estão a ter.
Tirem dele o melhor proveito também para vossa satisfação pessoal.
 
 
 
 
Dulce Martins
 
 

05/07/2013

Vivências

A propósito de um elogio, despertaram em mim tantas recordações!...
Saí da minha terra, do meu ninho, há quarenta e tal anos.
Lembro-me como se fosse hoje.
Vim atrás de um sonho de amor.
Não havia dúvida que era aquilo que eu queria.
Ao mesmo tempo, deixei metade do meu coração lá, no aconchego do meu berço.
Com o coração feliz e ao mesmo tempo ferido.
Ficou colado às paredes, às pessoas, à família e aos locais.
Os momentos de menina, alguns, apenas alguns, muito pesados, também me acompanharam.
Comigo veio a imensa recordação de uma vida feliz.
Vieram comigo os cheiros que ainda hoje guardo.
Mesmo em situações tão complicadas e traumáticas como as que passei lá longe, em Cabinda, na guerra colonial.

Veio comigo a saudade da inocência responsável.
Dos momentos em que, de repente, tive que me fazer mulher.
«Vieram comigo», aqueles que me ajudaram e ensinaram a crescer.
As amigas da minha idade, tantas!...
E também as amigas mais velhas.
As que me protegiam e me tratavam com imensa ternura.
Já casadoiras, chamavam-me para as acompanhar nos passeios e outras formas de lazer.
A Dulcinha, era assim que todos me chamavam, era para elas a menina ainda muito novinha, em quem depositavam confiança.
Aquela que guardava os segredos e que não estorvava os seus devaneios de jovens namoradeiras.
Nunca esquecerei a Zézinha Azevedo, a Maria de Jesus Soares, a Zulmira Fonseca, a Idalina Silva e outras que me acarinharam sempre e me ensinaram utilidades que ainda hoje me são úteis.
Como não hei-de eu falar com ternura das vivências de infância e juventude?
Porque não haveria eu de recordar com carinho, todo o carinho que recebi?
Escrevo assim, talvez porque a minha escrita vem do coração.
Talvez porque escrevo com a alma – assim haja, continue a haver, quem goste de me ler.

Obrigada a todos.
Abraço.

 

 
 
 
Dulce Martins
 
 
 

24/06/2013

As cores


 
Em certas situações, as cores são fundamentais.
São alegria, são luz e vida…
São bom gosto, harmonia e equilíbrio.
Muitas vezes as cores são também beleza.
Vejamos o arco-íris!
Noutras situações já penso que não é tanto assim.

A cor política por exemplo.
Neste caso e nos tempos que correm terá algum significado a cor?
Não estaremos cansados de ver alguns desses donos das cores, a não ser exemplo para ninguém?
O que eu penso é que é preciso olhar para quem nos irá representar.
Terão eles conteúdos humanos, sensibilidade e sentido do dever?
Será que dão prioridade às pessoas e às necessidades das populações?
Neste momento acho que temos que dar força é a quem se dispõe a trabalhar com seriedade.
Temos que dar força e respeitar aqueles que tiram do anonimato as nossas aldeias e as ajudam a progredir.
A nossa terra é um exemplo.
Tenho pena de não votar no Casteleiro.
O meu voto tinha de certeza destinatário.

Neste caso, as cores são secundárias.
 
Abraço
 
 

 



Dulce Martins



29/11/2011

O Chafariz das Duas Bicas

A propósito da notícia da iluminação do património, que aplaudo, lembrei-me de umas notas que há tempos escrevi sobre uma das «fontes», o Chafariz das Duas Bicas, que fica mesmo à porta da minha antiga casa.
A sua água, segundo os mais velhos, era de uma qualidade excelente.
Como disse, esse chafariz foi, durante muitos anos, meu vizinho muito próximo.
Sempre gostei, e até quase venerei, aquele chafariz.
Quase o sentia só meu.
Fez-me companhia nos bons e nos maus momentos.
Junto dele brinquei, fui feliz, amei, chorei – enfim, foi meu companheiro de todos os momentos.
O que mais recordo, e recordo com muita ternura, é o momento de deitar.
Sabia-me muito bem no silêncio da noite (o chafariz era mesmo em frente ao meu quarto), ouví-lo e ser embalada suavemente ao som da cadência monótona e calma da água a correr para dentro do pio (era assim que se chamava), eternamente…
E eternamente porquê?
Porque, ao acordar, lá continuava o mesmo som da água, com a mesma cadência, sempre pronta a dar-me os bons dias.
Assim.
Vinte e quatro sobre vinte e quatro horas.
Lembro-me muitas vezes daquele chafariz.
E também do sussurrar dos diálogos que aconteciam enquanto os cântaros enchiam.
Como não havia de lembrar?
Afinal, foi lá que cresci e me fiz mulher.
As minhas raízes estão lá bem fundas.
As minhas emoções também.
As recordações estão guardadas numa gaveta especial do meu cérebro.
E, claro, num lugar de eleição do meu coração.

Há coisas de que pouco se fala, mas estão e estarão sempre connosco.
Não foram afinal essas vivências que nos deram a personalidade que temos hoje?

Gostei de o ver a mostrar-se assim destacado e vaidoso, por aquele mimo que o realça ainda mais.
Até sempre, meu amigo chafariz.








Texto de autoria de Maria Dulce Martins


18/05/2011

A terra que nos viu nascer

A terra que nos viu nascer tem e terá sempre um lugar especial no nosso coração.
Quer estejamos próximos ou afastados, teremos sempre a sua marca, o seu carimbo.
Há laços que não se cortam, ficaremos eternamente enleados neles.
Até podemos estar algum tempo sem contacto físico, mas o coração pula sempre que alguma coisa nos fala desse berço que nos acolheu quando, pela primeira vez, tivemos contacto com o mundo.
A sua marca está gravada em nós.
São as nossas origens.
Renegá-las seria renegar a nossa identidade e as nossas raízes.
Sinto que faço parte da família casteleirense.
Sinto-me feliz pela evolução positiva que se tem verificado nesse bocadinho de terra aprazível e aconchegante da Beira Interior.
A Festa da Caça está a ser uma espécie de vitamina anual, que faz essa terra crescer e tornar-se mais forte.
Essa actividade – e outras igualmente mobilizadoras – é que fazem dela uma terra diferente e dinâmica.
Um exemplo a seguir.
Outras começam agora a sentir que também precisam de sair do anonimato.
A festa é uma forma de incentivo e dinâmica.
Vivam com alegria os dias que se aproximam, tirem partido de tudo e colaborem sem hesitar.
Entreguem-se à festa e a tudo o que ela oferece.
Entusiasmem-se.
Sendo assim, no ano que vem será ainda melhor.

Abraço.






Texto de autoria de Maria Dulce Martins

20/04/2011

O som das badaladas

Na minha aldeia, durante muitos anos, a única forma de orientação para lá da inclinação do sol, era o relógio instalado na torre da igreja.
Dlam, dlam, dlam…
Dolente, sem pressa, ia batendo as horas e dizendo a cada um, em que ponto do dia se encontrava.
Com os ouvidos sempre atentos, as cabeças erguiam-se e contavam:
Uma.
Duas.
Três…
Era a este ritmo manso que, naquele tempo, decorria a vida.
De dia e de noite.
O sino era uma companhia sempre presente.
Se por acaso parava (às vezes esqueciam-se de lhe dar corda), era logo notada a sua falta.
«Hoje o relógio não dá as horas!»
«Que horas serão?»
«Ai, isto assim é uma tristeza»!
Ouvi pessoas dizerem que o relógio era uma companhia, tal era a solidão.
Sempre que me lembro daquele som, revejo a aldeia quieta, serena, em silêncio.
Era um toque forte mas triste.
Sem pressas.
Um toque que soava cá mesmo no fundo, que mexia comigo, sobretudo se fosse em dias de tristeza ou de preocupação.
Ainda hoje quando telefono para casa e oiço lá longe o sino actual, mesmo sem querer, sou transportada para esse tempo.

Depois havia os outros toques do sino.
Esses tinham outras funções.
Praticamente as mesmas de hoje quase sempre relacionadas com actos religiosos.
Mas havia um toque que me marcou mais que qualquer outro.
O toque que anunciava mortes, o toque «a dobrar».
Era certo que esse era um dia de tristeza.
Como a aldeia era e ainda é pequena, a tristeza era geral, o espírito de união deixava todos com um semblante carregado e unidos na dor.
O sino aumentava ainda mais esse sentimento.
Dou comigo muitas vezes a recordar para mim mesma um célebre poema de Fernando Pessoa:

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

Como é lento…

É bom recordar.
Ainda que as recordações por vezes, não sejam tão agradáveis assim.
É sinal de que aceitamos o passado.







Texto de autoria de Maria Dulce Martins

14/12/2010

O Natal sempre

O mês de Dezembro chega e com ele o Natal e o inevitável frio. Depois do Verão quente e do Outono mais ou menos temperado, eis que chega o inverno a arreganhar o dente. Devagar, quase pé ante pé, aproxima-se, ameaçador. Nas aldeias, o pouco movimento de rua deixa de existir. Há como que um recolher obrigatório e um apelo à lareira quase desactivada até então. Lá fora, o vento faz-se notar e com ele arrasta as folhas já secas que jazem no chão. O seu movimento faz lembrar um bailado onde as cores, entre o verde, o amarelo, o castanho e o tijolo, são as estrelas O assobio que emite arrepia as entranhas e leva-nos a imaginar um cenário ainda mais agreste. No aconchego das habitações, conversa-se e recordam-se bons e maus momentos, e fazem-se projectos – quem sabe?
Neste contexto os avós têm um papel importante – basta querer ouvi-los, são um manancial de sabedoria e experiência de vida. Por mim e quando posso sou fã. Passa uma semana, passam duas, passam três e devagarinho começa a ouvir-se repetidamente a palavra mágica:
- Natal!
E o alguidar, e os ovos, a aguardente, a laranja docinha, o azeite e o leite? Ah!… e a farinha? Será que não vai faltar? Que vergonha andar no último instante já com as mãos na massa a pedir farinha! Organizar é preciso para que nada falte. Chegado o dia e com tudo ao alcance, amassam-se as filhós, cozem-se as batatas com o bacalhau e as couves já quase cozidas pela geada. E que bem que sabe aquela mistura!..
No meu tempo era assim o Natal: simples, sem consumismos, sem desperdícios. Os afectos eram o mais importante e aconteciam sem esforço ou faz-de-conta; as prendas… talvez algum menino Jesus mais abastado resolvesse pôr no sapatinho que ficava junto à lareira ainda grande, algumas moedinhas ou rebuçados que ao outro dia faziam as delícias dos mais pequeninos.
No ar ficava o cheiro a lareira e a azeite frito e também a autenticidade, que, sobretudo esta última, aquecia os corpos e principalmente os corações.
Para todos um abraço de boas-festas com muita ternura à volta.
Bom Natal.





Texto de autoria de Maria Dulce Martins

20/11/2010

O ritual da matança

Com o inverno a aproximar-se a passos largos, é inevitável que me venha à memória o frio com gelo e vento que se faziam sentir na terra que me viu nascer. Na minha memória já distante, surgem também e por arrastamento, as tradições da época: sim, aquelas que deixaram marcas fortes como os sempre presentes cheiros, a que já aqui me referi. Nesses cheiros estão incluídas as matanças e todo o seu ritual. Sim, porque de um verdadeiro ritual se tratava. Era um dia altamente programado, em sintonia com a família e os amigos. Só depois de acertados todos esses detalhes, se marcava o dia. Não me posso esquecer de referir que o matador estava no topo de todos os interesses do grupo, por razões óbvias, claro! Aprazada a data, a véspera desse dia era o ponto de partida para o acto. Tinha que ficar tudo preparado ao pormenor; desde o alguidar para aparar o sangue, até ao banco onde o pobre berrava sem obter clemência, até à agulha com linha para coser o buraco do facalhão (assisti a este martírio cruel vezes sem conta, assim, sem o mínimo de consciência – hoje juntar-me-ia à liga de protecção dos animais), até ao panal branco que, no fim do sacrifício, tapava o defunto. Vista a esta distância, a luta era cobardemente desigual, sete ou oito contra um, olha lá!....
Bom, mas vamos ao dia seguinte, o dia da matança propriamente dito.
Logo de manhã bem cedo, cinco ou seis da manhã, dependendo de a «pita» ser velha ou nova, acendia-se o lume e punha-se o almoço a cozer. Normalmente e ao mesmo tempo, eram postos mais dois ou três panelões, um com carnes velhas do porco do ano anterior, outro para cozer a couve tronchuda e a indispensável batata. Tudo isto tinha um sabor que ainda hoje sinto nas minhas papilas gustativas. E o cheiro? Hum!... Os cozinhados eram feitos enquanto os homens tratavam de pôr fim ao animal e o deixavam pendurado no chambaril, aberto e limpo de entranhas. O trabalho deles terminava após o almoço, que era servido por volta das dez. Depois de bem comidos e bem bebidos, saíam e deixavam o espaço livre às mulheres a quem a presença deles, diziam, só estorvava.
A partir daí, a matriarca da casa, com a sua sabedoria, comandava com mestria as operações, que, diga-se em abono da verdade, exigiam experiência.
No fim do dia, todas exaustas mas satisfeitas, e já tendo degustado todos os sabores confeccionados, iam descansar com a consciência de que a tarefa estava apenas no princípio. Era a festa da família.
Tradições que apesar de bárbaras, aproximavam as famílias e os amigos, e deixaram saudades do cheiro da morcela e dos cominhos!...





Texto de autoria de Maria Dulce Martins

24/10/2010

Ligações para a vida

Era com amizade e respeito que, nos idos anos sessenta/setenta, os jovens se relacionavam. Nessa altura, construímos ligações que ficaram para a nossa vida. Todos os dias no fim da sua actividade habitual se juntavam em sítios de referência, nos largos mais amplos: a Praça, o Terreiro de S. Francisco, o Largo do Chafariz das duas bicas. Então começavam as brincadeiras e as gargalhadas, que ecoavam à distância. Coisas de jovens a precisarem de distrair e de partilhar a alegria que lhes ia no peito.
Mesmo não se podendo alongar muito porque ao outro dia era preciso levantar cedo, não dispensavam aqueles momentos de prazer e descontracção.
O domingo era dia de descanso, dia de se embelezarem com as roupas guardadas para o efeito. Chegava o momento de cumprir os deveres religiosos. Como na altura não havia crise de sacerdotes, a missa era sempre ao meio-dia, salvo raras excepções.
Era ver os grupos de jovens, muitos jovens, rua abaixo vaidosos e seguros da sua juventude. Os rapazes concentravam-se na Praça e, malandrecos, procuravam o melhor ângulo de visão para observarem o desfile das beldades. Um jogo de sedução próprio da idade, que fazia com que ambas as partes gozassem o momento.
Acabada a missa e depois do almoço, começavam os grupos a juntar-se, rapazes e raparigas mais ao menos separados, pois as regras da altura eram apertadas.
Apesar disso, eram inevitáveis as trocas de olhares, que eram a denúncia de algumas paixões em gestação, à espera do momento certo. Em muitos casos, isso deu em casamentos – muitos dos quais ainda hoje estão de pedra e cal.
Começava então o passeio dominical estrada-abaixo-estrada-acima sem parar, com um pequeno intervalo para o jantar. Depois continuam à noite até á hora de ir para a cama, exaustos e com o coração a palpitar de entusiasmos.
Era um grupo unido, dinâmico e participativo, sempre pronto a aceitar as propostas que nos eram feitas para animar a vida da aldeia. Desde fazermos parte do coro da igreja, até ministrar a catequese aos mais pequenos, fazíamos pequenas peças de teatro engraçadas no Centro, que eram um divertimento para a população e aldeias vizinhas. Ao Casteleiro chegavam pessoas que à noite, enchiam o salão e faziam fila em bicos de pé, tentando ver alguma coisa. Devido a esse interesse, tínhamos que repetir no fim-de-semana seguinte. Eram também frequentes, as saídas em passeio aos mais diversos sítios, por exemplo a Lisboa, a assistir a acontecimentos de relevo. Estas actividades eram orientadas pelo pároco de então, Padre José Pires. Como já disse, os rapazes eram afastados destas lides, por serem «perigosas aves de rapina». Havia que manter as miúdas longe do perigo. Era sinal da altura.
O Casteleiro tinha cor e dinâmica. Foram tempos felizes e ainda hoje quando nos encontramos, recordamos com saudade essa época.
A brincadeira era muita, e a amizade também. Eram tempos em que a palavra solidariedade ainda fazia sentido.
Não acham que por exemplo esta ideia das peças de teatro era também uma boa forma de hoje dinamizar mais a população e os jovens?





Texto de autoria de Maria Dulce Martins

10/09/2010

Cheiros

Os cheiros são registos que me têm acompanhado durante toda a minha vida. A minha memória olfactiva tem-me conduzido através dos tempos aos mais diversos
sítios onde passei a minha infância. Sei exactamente o que cheirava a quê e onde.
O que é engraçado e provavelmente natural, é que dou comigo a recordar e a sentir os cheiros que me marcaram há tantos anos, com a mesma intensidade de então.
Pode parecer saudosismo, ficar para trás, mas não é. É apenas sentir o ontem que todos devíamos ter. E eu tive, com todo o afecto do mundo.
Então vamos aos cheiros.

Quando entrava em casa da minha avó materna, lembro-me de que ali pairava um cheiro quente a vacas, bosta e palha, que vinha da palheira por baixo da casa. Era um cheiro forte, marcante, que não era de todo desagradável, fazia parte da envolvência, do cheiro característico da casa, que nem por isso deixava de ser uma casa asseada. Posso dizer até que não seria a mesma se não cheirasse assim: a lavoura obrigava.
Lembro-me também de que, quando dormia lá e me deitava nos lençóis de linho fiado pela minha avó à noite à lareira à luz da candeia – lavados e passados com o ferro de brasas –, a sensação era tão boa, o cheiro era tão inebriante que é impossível descrevê-lo. E aquele cheiro da «abobrais» (penso que deve ser algo parecido com «aboboragem», das abóboras que também entravam na primeira refeição das vacas, às 7 da manhã, num caldeiro enorme) a ferver ao lume onde a lenha crepitava, estalava, e as faúlhas subiam e saltavam à volta? A casa era invadida pelo odor saudável a hortaliças cozidas à mistura com farelo que quase apetecia comer!
Na parte de baixo da casa havia uma loja onde se guardavam os produtos que a terra dava. Também aí me deliciava com o cheiro que vinha da «tulha», que era o sítio onde se guardava o pão em grão. Era um cheiro doce e ao mesmo tempo forte que me fazia ficar sempre durante alguns momentos a desfrutar de algo que hoje considero único.
Há outro cheiro que guardo: era o do soalho das casas depois de esfregado com sabão azul e branco. Aquela mistura de água, sabão e madeira molhada era uma festa de cheiros, qualquer coisa que ficava a anos-luz de todos os produto sintéticos de agora, por muito desinfectantes que sejam. É de notar que esta tarefa era feita pelas mulheres, e era uma tarefa árdua, porque tinham que andar de joelhos de escova na mão e a puxar pela força, o que as deixava exaustas. Exaustas mas satisfeitas, por poderem usufruir daquele odor e limpeza únicos.
Isto, sem esquecer o cheiro especial da chouriça assada na brasa logo ao pequeno-almoço acompanhada de café de cevada…

No que toca a cheiros, a nossa aldeia desse tempo deixou-me muitas e intensas recordações.
Ainda hoje, tantos anos depois, o meu olfacto desfruta delas.

E há mais disto no meu «arquivo».







Texto de autoria de Maria Dulce Martins

04/08/2010

A Festa

Aproxima-se a passos largos, a festa de Santo António. Tenho a certeza de que os organizadores, ou mordomos, como queiramos chamar-lhes, andam em grande azáfama para que tudo corra bem e para que toda a gente se divirta, durante três dias. Esta festa sempre foi muito importante não só para os residentes no Casteleiro, mas também para os seus emigrantes, que se deslocam dos mais variados destinos para participarem e darem também a sua contribuição, para que a festa brilhe ainda mais. Durante alguns anos, e devido ao envelhecimento da sua população, e ao afastamento dos mais jovens, a festa teve um declínio assinalável. Esse dia era apenas mais um, e deixava um amargo de boca, porque era inevitável fazer comparações com o que a festa já fora. Havia no ar uma certa tristeza camuflada.
Ainda bem que o Casteleiro está a rejuvenescer e que há pessoas dinâmicas e generosas que se entregam, agitam e impedem que tudo pare numa terra bonita como a nossa.
Parabéns pelos acordeonistas, vai ser um momento bonito que irá abrilhantar ainda mais o momento.






Texto de autoria de Maria Dulce Martins

22/06/2010

José Saramago morreu


A notícia caiu seca. Apesar de o saber bastante débil, surpreendeu-me e custou-me a aceitar. Imediatamente me questionei: quem vai agora agitar as consciências? Espicaçar as inteligências quantas vezes adormecidas? Pôr à frente dos nossos olhos aquilo que nos esconderam ou nos negámos a ver?
Quem como ele vai dar uso às palavras? Esmiuçar os pensamentos e pô-los no papel com a clareza e a profundidade que nos encantavam?
Ao ver as cerimónias fúnebres, não pude evitar uma lágrima, pelo Homem frontal e honesto, pela sua coragem e principalmente pelo escritor completo.
Vou sentir a falta do próximo livro, se calhar vou relê-los todos. Tenho a certeza de que só ganharei com isso.

Até sempre, José Saramago.









Texto de autoria de Maria Dulce Martins

10/06/2010

Os Santos Populares

Como se sabe, os Santos Populares são três: Santo António (a 13 de Junho), São João (a 24) e São Pedro (29). Mas no Casteleiro o único que era festejado era o S. João.
Nunca percebi porquê. Por simpatia apenas? Por ser considerado um santo casamenteiro? Fica a pergunta no ar.
Estas imagens que vou descrever, estavam no sótão da minha memória: são recordações longínquas, mas claras. Depois de as trazer ao de cima, de lhes limpar o pó, estou a ver o momento com clareza e vou tentar fazer-me perceber.
Esse dia era um dia normal de trabalho, apenas alguns se movimentavam em direcção à pequena comemoração.

Preparativos
Havia que arranjar um pinheiro alto para fazer o mastro e o rosmaninho para a fogueira. Depois de obtidas estas duas coisas, deitava-se mãos à obra. Um buraco no chão, o pinheiro ao lado estendido. As raparigas (normalmente era delas esta tarefa) vestiam-no na íntegra de rosmaninho. Carradas de rosmaninho.
Depois de fartamente enfeitado, os rapazes, mais fortes, erguiam o pinheiro e prendiam-no ao chão com pedras bem apertadas à volta.Preparava-se a fogueira ao lado. Também ela era suficientemente grande. Depois era aguardar pela noite. Chegada a hora, acendia-se a fogueira, uma grande fogueira, que exalava um perfume muito agradável, o que era notório á distância.

A festa nocturna
À noite, era a festa. Para que o cenário se completasse, era preciso que houvesse música para animar os ânimos. Então, havia sempre alguém que puxava por um realejo (agora chamado gaita de beiços) e começava a tocar. Aí começava a festa: caseira, mas muito divertida. Aquela música fraquinha, que se juntava ao som do crepitar da fogueira, fazia
as minhas delícias. Enquanto a festa durava, saltava-se a fogueira sem parar.Terminava-se com o incêndio ao mastro, coisa bonita de se ver. Parecia fogo de artifício. O rosmaninho estalava, as faúlhas voavam pelo ar. Era o entusiasmo geral, o culminar de uma noite de brincadeira.
Depois disto, era o recolher. Só ficavam os mais malandrecos, para iniciarem as brincadeiras da noite. Já de madrugada, a tradição cumpria-se.Começava a caça aos vasos de flores que as moças tinham a enfeitar as escadas das suas casas. Era um corrupio, os vasos eram levados do cimo para o fundo da aldeia e vice-versa, pondo as donas doidas à sua procura, de manhã, ao darem por falta deles. Chegavam a ir várias vezes aos locais (por exemplo, em cima da pedra alta do Chafariz da Praça) para trazerem de volta os seus vasos tão carinhosamente tratados.
Os rapazes, às esquinas, riam por terem provocado toda aquela brincadeira um tanto ou quanto confusa, mas muito engraçada e, sobretudo, de uma convivência saudável.






Texto de autoria de Maria Dulce Martins

11/03/2010

Acordeão. Que saudades!

Nos meus tempos de menina, lembro-me, o domingo era um dia especial. Porquê? Porque nesse dia, para lá de outras coisas, havia bailarico.
Um bailarico dos antigos, entenda-se, não daqueles que se fazem agora nas discotecas, tudo ao molho, com ruído ensurdecedor, com copos cheios de álcool e, por vezes, outras substâncias à mistura. Nessa altura, não precisavam disso para serem felizes.
Chegava-lhes um acordeão, um acordeonista, e espaço ao ar livre.
Só mais tarde, já a tender para os costumes de hoje, se começaram a usar espaços fechados.
Havia um grupo que tinha a tarefa de contratar o acordeonista com antecedência pois, na altura, a procura era muita.
Chegado o dia, esperava-se o artista, quase em clima de festa. Bebido o copito da praxe, dava-se início à primeira ronda (uma volta pela aldeia, a tocar). Aos primeiros acordes, instalava-se um clima de boa disposição, com muita gente a espreitar às portas e às janelas, para ouvirem as «modas» que na altura faziam as delícias de todos. O acordeão quase falava, tal era o empenhamento do intérprete.
Depois de correr a aldeia a tocar para chamar os participantes, sentava-se no Terreiro de S. Francisco num lugar de destaque, e tocava…tocava…
Era então que os primeiros pares avançavam entusiasmados, bamboleando-se para cá e para lá, com o coração a palpitar, muitas vezes de amor; um amor que para alguns já estava em gestação e era ali que se concretizava. A música, a proximidade, a descontracção, ajudavam a desinibir e a dar o primeiro passo.
Ainda me lembro da habilidade de alguns pares, a deslizarem ao som de toda a espécie de ritmos, com as saias esvoaçando, e os pés quase a não tocarem o chão. Tudo isto, alem do divertimento, era também uma forma de convívio. Havia um ou outro que, para ganhar coragem, bebia um copito a mais, para assim se desinibir e então se divertir.
O acordeão fazia milagres! Movimentava toda a aldeia, que se concentrava no Largo (de S. Francisco). Uns a dançar, outros a ver e a gozar o momento. Era um divertimento até às tantas.
A noite terminava com os corpos moídos, mas felizes. Tudo acabava com mais uma ronda, já altas horas. Já em casa, no silêncio, ouvia-se não só o som inconfundível e bonito do acordeão, mas também um coro de vozes cantando entusiasmadas. Era uma sensação boa, o corpo pedia mais, apesar do cansaço, e o coração estava feliz.
Era tempo de terminar, e acompanhar o acordeonista ao meio de transporte, que o levaria ao seu destino.
O dia seguinte era dia de trabalho, que às vezes era árduo. Provavelmente na semana seguinte havia mais.
Que tal uma experiência destas um dia destes?...





Texto de autoria de Maria Dulce Martins

06/02/2010

Quando os Carnavais eram Entrudos…

O mês de Fevereiro está aí e com ele o Carnaval que, em tempos idos, era sinónimo de festa e boas comidas. No Casteleiro, por feliz iniciativa da Junta, vai-se recriar o «Testamento do Galo». E há outras tradições engraçadas.
Em tempos, por esta altura, os mais abastados tinham acabado de fazer as matanças e as arcas, então de madeira e cheias de sal, guardavam quase carinhosamente tudo ou quase tudo o que o porco dava.
Na noite de segunda para terça, chorava-se o Entrudo: se alguém caía na rua, era certo e sabido que a envergonhavam nessa noite. Um homem, de funil, contava em tom jocoso, ridicularizando o sucedido, que a pessoa tinha caído:
- Não tem vergonha! Uuuuuh! A menina Fulana não tem vergonha andar a cair no meio da rua…
Às vezes a coisa era mais séria e até dava para o torto.

Terça-feira de Entrudo
Chegado o dia, era ver os panelões cheios das mais saborosas iguarias: do pé de porco, à orelha e ao chouriço de ossos, por exemplo.
Depois de bem comidos e alguns bem bebidos, saíam à rua para ver os entrudos passar.
Era aí que, no meio da algazarra, surgiam duas ou três figuras emblemáticas, que se destacavam pelos adereços: um burro manso e velho que era enfeitado com todas as velharias que houvesse lá por casa, um chapéu de chuva velho e uns vestidos.
Os criativos, José Balbino e irmão, travestiam-se com as roupas femininas que tinham à mão, preocupando-se com arranjar os artifícios apropriados, que simulavam os atributos femininos.
Cena de uma ingenuidade que hoje dá ternura…
Montado o cenário, lá iam eles aldeia fora, juntando à sua volta crianças e alguns adultos, que riam a bandeiras despregadas.
Um, sentado no burro, o outro, «zanzando» à volta, metendo medo à criançada, que fugia, fingindo que tinha medo, para logo voltar a pedir mais.
Era neste ambiente de partilha e envolvência, que toda a gente assistia ao espectáculo, cujo tema não mudava muito de ano para ano, excepto uma ou outra lenga-lenga dita com muita graça, mas sem conteúdo ou maldade. Tinha só a intenção de divertir.
E os «comediantes» conseguiam-no, porque no ano seguinte, lá estavam outra vez, actores e espectadores no mesmo teatro de rua para se divertirem desde as 10 até a noite cair.
Havia um pequeno pormenor para os dois comediantes: como a brincadeira era acompanhada de copos, o regresso a casa era feito em ziguezague e ao trambolhão, até chegarem a casa, onde as suas Marias os esperavam, já habituadas a estes rituais do Entrudo.
Havia um deles, que era todo mimos e, ao chegar, fazia:
- «PUM!», como se disparasse um tiro.
E como ela não reagisse, soltava:
- Então, Mariazinha? Não te sobressaltaste, meu amor?
Após isto, acredito que caía na cama e sonhava com o carnaval do ano seguinte.







Texto de autoria de Maria Dulce Martins

02/01/2010

A dor de sair e o prazer de regressar ao Casteleiro

Nos idos de 70, ainda muito jovem, no início da casa dos 20, e por força das circunstâncias, fui «obrigada» a sair da terra onde nasci e sempre vivi até então.
Doeu muito.
Mas a pequenez e a falta de oportunidades levou a isso.
Como, certamente aconteceu a tantos jovens obrigados ao mesmo rumo.
Com o coração dividido, lá vou eu a caminho do desconhecido.
Lisboa, Angola, Amadora…
Mas, sempre, sempre, a alegria de cada regresso.
Ainda hoje e cada vez mais, parece.

Por essas muitas paragens, tudo era tão diferente!
As pessoas, os lugares, os cheiros, os costumes… «aquilo» não me dizia nada.
Foi com dificuldade e algumas lágrimas que me fui adaptando.
Desejava ansiosamente uma oportunidade para poder voltar e matar as saudades. Da família, dos amigos e dos lugares.

Ainda hoje, apesar da longa ausência, sinto que as minhas raízes continuam agarradas a essa terra que me viu nascer.
E é com muito agrado e algum entusiasmo que vou sabendo da evolução que tem havido de há algum tempo para cá: na Junta, no Lar e até nas ruas – é um ambiente bom que se está a criar.
É sinal de horizontes largos e de preocupação de contribuir para que o nosso «berço» se alargue e possa oferecer à população e aos jovens as condições para poderem viver no Casteleiro com a qualidade de vida que merecem.
Força e não desistam.
Boas Festas.

Texto de autoria de Dulce Mendes Martins