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14/05/2015

O SERINGADOR faz 150 anos - MAIO



“Vou andando de mão em mão/E a quem da terra tira o pão/Vou seringando ao ouvido/Para pôr as mãos ao trabalho/Como se lida com o malho/ Para que seja bem batido”
Maio – 31 dias: assim chamado por ser dedicado à Bona Dea ou Maia, deusa da primavera e do crescimento.
O tempo: Brusco, com vento, chuva ou trovões.
No campo, sacham-se e limpam-se as hortas das ervas ruins e regam-se convenientemente. Cortam-se os novos rebentos das fruteiras. Vigiam-se os enxertos. Castram-se os bezerros, porcos e cordeiros. Retiram-se os estrumes dos currais e transportam-se para os campos e terras de pousio. É também neste mês que se enxofram e sulfatam as vinhas. Acrescentam-se as colmeias e juntam-se as cabras com os machos.
Semeiam-se: abóboras, feijão de trepar, pepinos, melões, cenouras e plantam-se alfaces, couves variadas, pimenteiros e tomateiros.
 
 Rifões populares do mês de MAIO:
“Maio pardo e ventoso faz o ano farto e rendoso”
“Maio ventoso, faz o ano formoso”
“O que abril deixa nado, maio deixa-o espigado”
“Maio fresco e molhado é bom prá vinha e para o prado”
 
 




"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia

01/04/2015

O SERINGADOR faz 150 anos - Abril


“É seringando que ensino/Como se planta o pepino/Os tomates e a beringela,/Pois em qualquer estação/Para haver boa produção/É com a minha seringadela.

Abril vem do latim Aperire, abrir: é o mês em que abrem os botões.
O tempo estará vário.
Para trás ficaram os dias e as noites escuras e frias. Com o equinócio da Primavera (20 de Março), a hora mudou. Os dias já são maiores, as manhãs mais claras e as tardes solarengas. A contrastar com o cinzento invernoso, os campos encontram-se repletos de cor, cheiros … de vida. Agora, a natureza desafia o homem para a sua festa – a festa das flores! Quem resiste a tamanha beleza?
Há que arregaçar as mangas: tratar das árvores de fruto, retirar-lhes os rebentos gulosos e ladrões e combater as pragas florestais. As terras de pousio devem ser remexidas para receber novas sementeiras. A poda das videiras deve estar concluída. É altura de cavar as vinhas.
Devem iniciar-se as sementeiras de milho nas terras secas. Quem quiser, é altura de semear o linho, pepinos, alhos-porros e alfaces.
Neste mês limpam-se as colmeias das aranhas e afins.

Rifões populares do mês de ABRIL:
“Água que em abril ficar, no verão há-de regar”
“Vinha que rebenta em abril dá pouco vinho para o barril”
“A sardinha de abril é vê-la e deixá-la ir”






“A Minha Rua”, Joaquim Luís Gouveia




03/03/2015

O SERINGADOR faz 150 anos - MARÇO



150 anos é o tempo que nos separa desde a fundação do SERINGADOR até aos nossos dias. Reportório que ainda hoje apresenta o seu formato inicial, impresso a preto sobre a folha de papel A4 branca dobrada ao meio.
Antigamente podia ser comprado nos mercados (Sabugal, Belmonte…) ou comércios onde se vendia um pouco de tudo; refiro-me a título de exemplo “o Depósito – o melhor do comércio local de então”, no Sabugal, local onde atualmente se situa a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo. Hoje podemos encontrar o SERINGADOR em qualquer papelaria ou quiosque de venda de jornais.
Com base neste auxiliar e com ajuda da sabedoria do nosso povo aqui vos deixo alguns conselhos úteis para o mês de MARÇO.

MARÇO – dia 20, chegada da primavera (22h 45min)
Algum frio, pouca chuva e tempo nublado. Tempo variado.
No jardim devem ser podadas as roseiras, devendo ser cortadas na ligação com o pé-mãe e aproveitar as varas cortadas para plantação.
Na adega o vinho deve ser passado a limpo, retirando-o das borras.
No campo plantam-se as batatas e semeiam-se espargos, morangueiros, pepinos, melões, milho, alfaces, cenouras, linho e grãos. Nas terras quentes devem plantar-se as figueiras. Deve-se plantar o cebolo. Enxertam-se damasqueiros e pessegueiros.

Rifões populares do mês de março:
“Páscoa em março, ou fome ou mortaço”
“Quando troveja em março, semeia no alto e no baixo”
“Em março chove cada dia um pedaço”
“março pardo, antes enxuto que molhado”







 "A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia



12/02/2015

O SERINGADOR faz 150 anos


Com o seu “Reportório Crítico-jocoso e prognóstico”, o SERINGADOR faz agora 150 anos. É um almanaque que ao longo do tempo tem granjeado muitos leitores, uns para acompanharem as previsões meteorológicas, outros para seguirem os conselhos do calendário agrícola ou ainda para saber quando são os mercados e feiras lá da vila.
Com base neste auxiliar e com ajuda da sabedoria do nosso povo proponho-me deixar aqui, mensalmente, alguns conselhos a nível da meteorologia e dos trabalhos agrícolas.

FEVEREIRO: Bom tempo. Tempo húmido. Tempo frio.
Acabam-se as podas e lá para o fim do mês iniciam-se as enxertias. Planta-se o cebolo.
As terras que irão receber as sementeiras já devem estar lavradas, devendo agora ser revolvida novamente para arejar. Surriba-se a terra para plantar vinhas e pomares. Deve-se estrumar a terra para os batatais. Enxertar macieiras, pereiras e outras árvores semelhantes. Plantar laranjeiras e limoeiros, álamos e loureiros. Semeia-se aveia, rabanetes, couve-flor, brócolos, repolhos, cenouras, cebolas, espinafres, beterrabas para temporão.

Rifão popular do mês de fevereiro:
“Para fevereiro, guarda a lenha no quinteiro”
“Lá vem fevereiro, que leva a ovelha e o carneiro”
“Chuva de fevereiro vale em estrumeiro”

… até ao próximo mês março!







"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia




02/02/2015

Nossa Senhora das Candeias



Hoje, dia 2 de fevereiro celebra-se a Nossa Senhora das Candeias. Como diz o povo "se Nossa Senhora das Candeias estiver a rir está o Inverno para vir, se estiver a chorar está o Inverno a passar", ou seja, a presença de um dia solarengo pode ser mau presságio pois tal significa que ainda temos mais uns tempos de invernia.
Esta celebração da Senhora das Candeias está, sobretudo, relacionada com a importância do azeite, quer como elemento fundamental na dieta mediterrânica, quer como produto utilizado na cura de algumas doenças, quer ainda como produto utilizado em práticas religiosas. Por fim, é preciso não esquecer a importância do azeite para alumiar, dar luz, sobretudo num tempo, já longínquo, em que a eletricidade ainda estava distante das nossas aldeias do interior. Assim, em dia de Nossa Senhora das Candeias é tempo de agradecer o azeite conseguido na temporada anterior e pedir um ano cheio de azeite pois este é bem precioso e é preciso agradecer esta dádiva.
Como hoje o tempo está mais para chorar do que para rir, talvez seja um bom sinal para o inverno abalar e preparar a natureza para o “milagre da multiplicação”.






"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia





08/10/2014

Marcas de um Tempo


Percorrendo algumas das ruas do nosso Casteleiro são visíveis, aqui e ali, sinais de um tempo alicerçado em muitas vivências e histórias de vida verdadeiramente enriquecedoras.
A velha porta da loja tem ainda bem visível o orifício que dava livre acesso ao gatinho lá da casa bem como aos seus amigos da rua. Sinal, também, de liberdade e de amizade para com os animais de estimação lá de casa.
As colunas graníticas, sinal de robustez e segurança, ajudam a manter a parede da casa, enquanto o telhado, acentuadamente ondulado, já não dá garantias de segurança no inverno que se aproxima.
A argola de ferro feita a partir do «olho de sacho», entalada entre as duas pedras de granito, servira para prender o burro enquanto o dono descarregava a lenha ou as sacas de feijão que era preciso guardar e preservar das chuvas inverniças. Com a rédea ali entalada o burro mais não tinha do que esperar que o seu dono lhe desse a ordem de soltura.
Agora, e apesar da porta já não abrir ela continua a ser a sentinela do tempo e, o gato continua a usar a sua liberdade, como aliás sempre fez!
 

 
 
 
"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia
 
 
 
 

09/09/2014

Com sua licença, o porquinho!


Agora jaz, abandonada, encostada à parede da pocilga onde outrora albergava, com sua licença, o porquinho.
É uma pia igual a tantas outras, não fosse ela portadora de estórias de magrezas e abastanças inigualáveis. Escavada na dureza do granito da serra da vila, ela serviu, viandas sem fim, às porcas parideiras que por ali habitaram, bem como aos lustrosos porcos que serviriam de sustento, durante todo ano, às pessoas lá de casa.
Agora que as viandas se tornam inúteis porque o porco já ali não habita, e as pessoas que lhes davam vida irão continuar ausentes, a pia permanece intacta como que desafiando as agruras do tempo e completamente disponível para outras funções. Quem sabe, um dia, para servir de floreira num qualquer jardim desta aldeia situada, paredes meias, entre as duras rochas graníticas da serra d'Opa, cabeço pelado, serra da vila e os terrenos férteis dos seus vales...castelões, estrada velha, Santo Amaro ...
Enquanto isso não acontecer esta pia, granítica, continuará imóvel como firme sentinela de um tempo com muitas estórias ainda por contar.
 





"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia



 

26/05/2014

Quem se lembra?

O Burro de cangalhas
Esta imagem representa uma época não muito distante dos nossos dias mas, o suficiente, para que a juventude de hoje não tenha disso recordação.
Animal modesto, meigo, de olhar doce e andar pachorrento. Na nossa aldeia, ele fazia parte de quase todos os agregados familiares. Num tempo em que todas as famílias expurgavam da terra o máximo que esta lhes podia dar, o burro assumia um papel importantíssimo: transportava bens e pessoas e ainda, como força motriz para puxar a nora, tirando a água do poço para a rega da horta.
Será interessante dar a conhecer o “equipamento” com que este asno se apresenta: Sobre a cabeça, exibe o «cabresto» – feito de cabedal e, juntamente com a «rédea» (corda de sisal) servem para o homem o guiar, ou simplesmente o prender a uma árvore ou num local onde possa pastar. Sobre o dorso ostenta uma «albarda», feita de cabedal (à frente e atrás) e pano-cru, cheio de palha muito bem acomodada de modo a constituir um assento bem cómodo para que o dono se sinta bem, quando caminha de casa até ao chão. Para segurar a «albarda» utiliza-se uma «silha», em forma de cinto, apertando esta, à barriga do animal. As «cangalhas» (na figura) assentavam sobre a «albarda». Considerado um assessório de grande utilidade, serviam para transportar o estrume, e outros bens. Sim, porque não havia os tratores que hoje há!...
Acrescento ainda o «burnil» (a gravata do burro), feito de cabedal e pano-cru, e, uma vez colocado sobre o pescoço do animal e com a extensão de umas cordas, servia para atrelar o arado ou a «nora».
Todos estes «arreios» eram feitos por medida, por um «albardeiro» que, de tempos a tempos, deslocava-se de terra em terra, fazem arranjos nas «albardas» usadas e tirando as medidas para as encomendas que mais tarde haveria de fazer. Normalmente estas entregas eram feitas ao domingo, logo pela manhã e, diz-nos quem sabe, que as «albardas» custavam um dinheirão!
O último «albardeiro» visto pelo Casteleiro, vinha de Stº Estêvão. Era conhecedor de uma arte rara! Por vezes as «albardas» estavam a necessitar de arranjo e o «albardeiro» não havia maneira de aparecer!...Hoje é considerada uma das profissões já extinta!


NOTA: O negócio dos burros geralmente estava nas mãos dos ciganos. Quando o comprador tentava fazer negócio, o animal apresentava-se na melhor forma. O pior era nos dias seguintes!...






"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia

15/05/2014

Linhaça - 5 mil anos A.C.


 
No 'post' de hoje quero falar-vos da linhaça tão consumida hoje no pão, bolos e flocos de cereais, mas em tempos antigos guardadas religiosamente pelas nossas avós para combater o inchaço, reumatismo, artrose, etc.
Como curiosidade, a semente do linho também conhecida como linhaça, remonta a milhares de anos antes de Cristo (5 mil A.C.)!!!
À semelhança do que tem acontecido com outros usos e costumes do Casteleiro, fui algumas idosas do Lar e Centro de Dia local, que se deliciam a falar destas coisas, as suas mães e avós costumavam aplicar sementes quentes, no local desejado, de manhã e à noite. Mas afinal, como faziam para aquecer a linhaça? Perguntei. 
Numa malga/tigela com água quente (preferível a ferver) colocavam 2 ou 3 colheres de sopa de sementes. Depois colocavam esta papa num lenço ou pano limpo, dobrado para conservar o calor; depois deixavam arrefecer um pouco e aplicavam o emplastro, na cara, no joelho, perna ou pé.
A linhaça além de combater o inchaço serve, ainda, para reduzir o colesterol, diminuir peso, melhorar o funcionamento do intestino, regular a pressão arterial, etc.
Para a Ti Graça e Ti Zabel (nomes fictícios) a linhaça foi sempre muito usada na “cura de muitos males: maçadelas nos pés, frúnculos, espinhas (não de peixe, mas qualquer coisa que se espetasse no pé, mão, braço…Era remédio santo!
“Hoje em dia é que há remédio para (quase) tudo” – diz a Ti Zabel, soltando uma rasgada gargalhada.
 





"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia



05/05/2014

O Linho – Da sementeira à toalha de mesa

Para quem, como eu, nasceu e cresceu na aldeia já ouviu falar com certeza, numa cultura que desapareceu por completo, das produtivas baixas do Casteleiro – o linho. Na tentativa de recuperar todo o processo, desde o seu cultivo até aos bonitos panos ou toalhas, que em dias festivos tornavam a mesa da sala de jantar mais composta, fomos ouvir pessoas idosas que, desde muito jovens, sabiam manusear muito bem todos os artefactos usados no cuidadoso trabalho de preparação dos fios que, mais tarde, serviriam de matéria prima a verdadeiras obras de arte.












Tudo começava pela sementeira, em terrenos húmidos, que acontecia entre Março e Abril. Três meses depois estava pronto para arrancar e começar uma série de operações até obter o tecido do linho.
Depois de arrancado, com raiz e tudo, era ripado no ripanço e levado em molhos para a ribeira onde permanecia, enterrado na água, cerca de duas semanas.
A seguir era levado para casa, onde era batido durante muito tempo, com um maço, esfregado sobre uma pedra de modo a tirar-lhe a casca rija. Uma vez em casa, o linho era tascado no cortiço com uma espadela.
No cedeiro era separado o linho mais fino do mais grosseiro – a estopa, usada na confeção de sacos.
O linho fino era então fiado com roca adequada. As mulheres punham-no na roca para depois o puxarem com os dedos, molhando-o, lambendo os dedos e dele fazerem fios, enrolando-os no fuso. Desta operação resultavam as maçarocas que eram postas no sarilho dando origem às “meadas”.  
Para branquear o linho, faziam-se as “barrelas” em água a ferver com cinza numa panela de ferro, até o linho amolecer, passando, de imediato, à dobadoira para fazer os novelos que vão ao tear, donde sai o pano, que depois de corado alguns dias ao sol, dava origem a várias utilidades para a casa ou mesmo para peças de roupa.












Os teares eram, também, peças-chave do processo, indispensáveis a quem, tendo linho, queria então fazer lençóis, toalhas, panos para tapar as cestas e tabuleiros, camisas.
Aqui fica o registo de mais uma atividade que, durante muitos anos, ocupou as famílias casteleirenses.

Por mim, sinto-me mais enriquecido, mas com uma forte vontade de continuar a percorrer este caminho na busca de outros apontamentos que ilustrem as vivências de um povo que dedicou uma vida inteira à terra, de onde retirou, sempre, o sustento para os seus filhos. Oxalá aconteça o mesmo consigo, caro leitor!






"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia



20/04/2014

Alguitarra

“Não só de pão vive o homem…mas também de uma boa aguardente feita na tradicional alguitarra, acompanhada de um belo figo seco ”.
Esta frase era frequente ouvir-se na tradicional taberna do ti Zé da velha (assim conhecida por todo o povo, sem que o próprio se aborrecesse com tal forma de tratamento). Ali, entre um copo e uma bela cartada, falava-se de tudo um pouco.



Apesar das vindimas já irem longe e o vinho novo ir minguando nas adegas quase desertas, hoje trago à vossa lembrança o tradicional fabrico da aguardente, por terras do Casteleiro.
Tão normal como fazer o vinho, era o fabrico de aguardente no alambique de cobre (aqui chamado de alguitarra), do tempo dos nossos avós. E, porque eram poucas as pessoas que tinham a sua própria alguitarra, era muito frequente cobrar por se fazer aguardente no alguitarra alugada. Este pagamento, por vezes, era feito através de dias de trabalho a prestar em terras do proprietário, servindo assim, como moeda de troca pela utilização deste utensílio de cobre, ou então um favor que ficava sempre por pagar…
O alambique ficava no pátio de uma casa, à medida que os moradores combinavam os dias ou as noites para fazer a aguardente. Normalmente optava-se pelo tempo chuvoso para, à volta de um bom lume, indispensável a uma boa destilação, se atiçarem conversas, molhadas com um belo vinho, acompanhado de uma bela assadura, ofertada pelo dono da aguardente que haveria de sair deste popular instrumento.
Para uma boa destilação, é necessário manter sempre o mesmo corrimento, pois o lume que arde e dá o calor deve ser mantido mais ou menos constante, com boas brasas e sem chama. Se escorrer demasiado, passa-se um pano molhado à volta do pote. Se não deitar o suficiente mete-se mais lenha, usando sempre este método até sair fraca.
A prova é feita com um copo pequeno: se é saborosa, se é forte ou fraca...mas ao lançar-se um pouco dela às brasas, se as incendiar, fazendo chama, é sinal de estar forte... 
A primeira aguardente retirada, cerca de 2 jarras, parece água destilada, e só à medida que decorre a fervura vai sendo cada vez mais forte, no fim, já sai mais fraca. Era também normal misturar (caldear) a aguardente mais forte com a mais fraca.
Ao que nos dizem, hoje em dia, é muito perigoso fazer-se a aguardente desta maneira, tão rica e tão popular…É proibido!...Falta o controlo de qualidade…Falta a certificação…Falta o cartão de produtor…Falta o registo das Finanças…Falta…Falta…
Falta valorizarmos o que é nosso.
Quantos produtos genuinamente nossos, se vão continuar a perder por este mesmo motivo?
É PENA!
Deixo aqui o meu protesto!






"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia


02/04/2014

Lar do Casteleiro consolida património


No passado dia 29 de março, meia centenas de associados do Lar e Centro de Dia de São Salvador do Casteleiro, reunidos em Assembleia Geral, aprovaram o Relatório e Contas referentes ao ano de 2013, bem como a proposta de alteração dos Estatutos, aqui trazida pela Direção. Ambos os documentos foram aprovados por unanimidade.
As explicações oportunas da Presidente da Direção, Sandra Fortuna, a respeito da execução do Plano de Atividades foram reforçadas pelo técnico oficial de contas presente, que demonstrou o bom estado de saúde financeira da instituição.
Por último, Sandra Fortuna anunciou com elevada satisfação, a aquisição do terreno contíguo ao Lar (a Norte) – onde se localizam vários pinheiros – recentemente adquirido pelo Eng.º José Paiva aos herdeiros de João Rosa. Desta forma, a Direção considera ver concretizado um desejo de consolidação do património do Lar e Centro de Dia De São Salvador do Casteleiro. Esta notícia foi muito bem recebida pelos associados presentes.
 






 "A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia
 
 
 

24/03/2014

CORNATCHO


Apesar da seara que o há-de, se encontrar no seu desenvolvimento natural, ao longo dos seus nove meses de gestação (de novembro a julho), hoje apeteceu-me trazer à vossa lembrança e conhecimento, algo estranho - «cornatcho» - procurado nas espigas do centeio, por alturas da ceifa.
Crianças e adultos, de olhos bem abertos, percorriam as searas já amadurecidas e, quando encontravam este fungo do centeio, de forma córnea, explodiam de alegria. O preço a que era vendido justificava tal busca.
Depois de colhido, era muito bem guardado até que passavam pelo Casteleiro uns homens munidos com uma “balança de dois braços” para o comprar e pagar. Normalmente aos domingos – dia de agradecimento ao Senhor – ouvia-se o já conhecido pregão:
- “QUEM TEM LENTICÃO, SARRO E FERRO VELHO P’RA VENDER?” Assim diziam em voz alta os homens de saco às costas, vindos do Dominguizo – terra do concelho da Covilhã. 
No tempo em que o dinheiro não abundava, sempre era uma ajudinha para comprar a roupa e os sapatos para a festa de Santo António, que seria no mês de Agosto.
Notas:
(1)   Lenticão: nome das excrescências do centeio (no Casteleiro chamadas de «cornatcho»);
(2)   Sarro: nome dado ao pó retirado ao interior das pipas do vinho, aquando da sua preparação para, em setembro, levarem o vinho novo.
(3)   Ferro velho: relhas e bicos dos arados, já gastos, usados na lavragem da terra; aros de pipas, já corroídos pelos anos; panelas de ferro consumidas pelas gerações já passadas (…) entre outros ferros que pudessem ser «reciclados».
 
APELO: Consciente do espaço mediático e de comunicação que, hoje em dia, o Faceboock ocupa no dia-a-dia dos cidadãos, não posso deixar de fazer um apelo a todos os casteleirenses para que, apesar disso, não deixem de utilizar o nosso blogue VIVER CASTELEIRO.
Considero este meio um espaço plural onde, cada um, à sua maneira, pode contribuir para um conhecimento cada vez maior, desta nossa terra.
Desde os documentos que trazem até nós o conhecimento de figuras e acontecimentos relevantes na história do nosso povo, passando pelos recortes de vidas e tradições, o VIVER CASTELEIRO assume-se, ainda, como um espaço de informação sobre os mais variados aspetos do dia-a-dia do Casteleiro.
 
 
 
 
 
 "A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia

 

 
 

17/03/2014

Sabão em barra


 
Longe vai o tempo em que o sabão era feito em casa, à medida da necessidade mas, sobretudo, de acordo com a matéria prima existente, ou seja das borras que se depositavam nos potes do azeite que alimentava com muito rigor, as bocas da casa e a candeia que servia de companhia nas noites longas de inverno.
Lembro que a minha mãe fazia muito bem este tipo de sabão sim, porque nem todas as mulheres sabiam tal fórmula mágica!
Antes de escrever sobre este assunto, fiz umas perguntas a várias pessoas ao que me disseram que, em tempos antigos, quando não havia detergentes, a maioria dos sabões caseiros não faziam espuma, mas acrescentava-se cinza, para ajudar a tornar o sabão mais "branqueador" e a gordura utilizada era o resto, borras do fundo, do pote do azeite. Se houvesse dinheiro, então comprava-se um cartucho de sabão em pó, igual ao que os barbeiros usavam para ensaboar as barbas dos homens. Assim, o sabão fazia tal espuma que até parecia de compra.
No Casteleiro, como noutras aldeias do nosso concelho, só as famílias que tinham muitas oliveiras é que faziam este tipo de sabão.
Atualmente e por culpa das gerações presentes, assistimos ao desaparecimento destes saberes fazer, característicos duma época em que “a necessidade aguçava o engenho.
Para que conste da memória futura, aqui fica a receita deste sabão tão popular.
 A receita:
Para fazer este sabão de tipo “caseiro” utiliza-se borra/restos de azeite, soda cáustica e potassa. Para dar espuma e cheiro, adiciona-se detergente ou sabão em pó e água.
Faz-se uma calda ao lume e deixasse apurar até ficar uma pasta pronta para endurecer. Verte-se, com cuidado, numa base que seja lisa e aguente o calor. Depois é só deixar arrefecer. Por fim, corta-se o sabão em barras e talha-se aos bocados, de acordo com a sua utilização futura.
 






"A Minha Rua", Joaquim Luís Gouveia