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01/10/2010

Os Netos do Casteleiro

Todas as memórias aqui faladas e descritas são feitas por pessoas da idade dos meus pais Casteleirenses de gema.
Então e as memórias dos seus progenitores? Nascidos em terras onde lhes davam empregos ou onde “tinha calhado” comprar casa ali e ali viver.
Os filhos de filhos casteleirenses também têm muito boas recordações….
Todas as férias eram passadas no Casteleiro.
Juntamente com as primas, umas que lá viviam, outras da “cidade” como eu, que iam de férias também, para casa das avós.
Fui criada na cidade com a minha avó Aurélia, mas assim que tinha férias da escola lá íamos as duas na “Carreira” ou no comboio rumo ao Casteleiro.
A época que eu mais gostava era do Natal!
O Natal era passado em casa da minha tia Zulmira Cameira.
A Tia Zulmira! Que faz um arroz doce “divinal”…Tudo lá em casa era “diferente”…. O cheiro do estrume das vacas que vinha da loja….o cheiro a lume da lareira…os gatos, os cães que pareciam falar, o “marrano” lá no seu curral….até o leite acabado de ordenhar, que bebia ainda quente….
E O PINHEIRO do Natal!
Vésperas de Natal, nós, as primas, íamos em busca do pinheiro e do musgo. O Pinheiro era cortado com um malho e trazido para casa a arrastar. Como era pesado! Ou então trazíamo-lo no carro das vacas (o que nos dava uma grande ajuda!)
No dia 24 de Dezembro depois de jantar lá íamos dar uma “espreitada” até ao Madeiro…que coisa maravilhosa! Um lume Grande! Uma lareira Gigante! Como eu adorava aquilo….
Dia de Natal quando acordávamos ia-mos ver as nossas botas…e…. cheia de rebuçados….juntamente com uma moedinha….
Na casa da Avó Maria gostava de ver matar o porco e cortar a carne para fazer as “chouriças” naquela tábua com um prego no meio. A seguir encher a tripa do porco com as febras e dava á minha avó para as atar.

No verão….ainda apanhava o último dia de aulas da minha prima Isabel…então aquele dia era dia de ir para a escola com ela…que bom!
Piolhos, carraças, amigdalites…. Tive direito a tudo….:)
As festas de Verão… os bailaricos onde dançávamos a noite toda e ao fim da noite ir descalça para casa, pela rua da Estrada, onde o alcatrão ainda queimava os pés àquela hora da noite…
Os “banhos” de piscina (feitos no lagar da avó Etelvina) enchidos à mangueira, até termos água pelos joelhos…
As idas ao chafariz das duas Bicas buscar água nos jarros azuis....e passa-los para os potes de barro que estavam na cantareira….
Os jantares no “balcão” da Avó Maria, e cada vez que o sino dava horas, tudo tinha de se calar….tal era o som ensurdecedor....
Lavar a roupa na ribeira, transportada em “banheiras” grandes, e corá-la na relva ao sol, com sabão de “potaça”… “banheiras” tão grandes, que tomava-mos banho nelas…ao Domingo!
Andar na “burra” da minha Bisavó (Etelvina), fazer a vindima na “serra” no carro das vacas….ser picada por abelhas…e por fim pisar as uvas já no lagar…
Enfim….recordações de “meninas” da cidade que aos 37 anos recordam como se tivesse sido no Verão passado….

Texto de autoria de Susana Leitão

19/08/2010

Há 55 anos: o dia-a-dia de um miúdo de 8 anos no Casteleiro

Ali por meados dos anos 50 do século XX (digamos, em 1956/57), como era a nossa vida no Casteleiro? O que fazíamos? Como nos divertíamos? Como era a escola? Brincávamos a quê?



Antes de mais, íamos à escola. Entrava-se cedo e havia aulas de manhã e de tarde. Os professores e as professoras desse tempo, com tantos problemas de pedagogia mal resolvidos, tinham uma coisa muito interessante: davam-nos aulas de apoio da parte da tarde. As escolas eram separadas: as raparigas, na escola de cima (ao pé do Lar), e os rapazes naquela coisinha pequenina do Largo de São Francisco, onde mais tarde foi a Junta. Tinha havido no Casteleiro professores muito violentos, que deixaram má memória nas gerações anteriores: a D. Aurora, que batia nas cabeças e as fazia estourar contra as paredes, nos anos 40; a Rabaça, que batia até fartar, no início dos anos 50. A essa, uma das vítimas, com dificuldades de pronúncia, até lhe chamava «Lhabaça dum filha dé p…), se é que me entendem. Assim mesmo: Lhabaça…
Quem não sabia quantos são 4 vezes 5 ou coisa do género, já sabia: meia dúzia de reguadas ou de varadas pela cabeça abaixo.
De resto, como era um ensino essencialmente baseado na memorização e daí o uso sistemático e obsessivo da repetição, armava-se nas escolas um coro sem-fim do género (bem gritado, quase a cantar):
- 2 vezes um, dois!
- 2 vezes dois, quatro!
- 2 vezes três, seis!
E assim por diante até ao
- 2 vezes 10, vinte!
Do mesmo passo, debitavam-se as linhas de caminho de ferro, com as estações todas alinhadinhas, as serras uma a uma pelo País abaixo (Penedo, Soajo, Gerês…) ou os nomes dos rios todos com os seus afluentes e tudo o mais: coisas que ainda hoje cá estão dentro e ficarão para sempre, claro, a ocupar espaço…

Nos sábados e domingos, era sagrado: ou havia baile em São Francisco ou nos Italianos. Os jovens e adultos dançavam imenso nesse tempo. Nós, os pequenitos, passávamos a tarde a correr que nem uns doidos por entre as pernas dos dançantes, a fugir uns dos outros sem parança. Eram momentos de grande excitação.
Uma vez por acaso, havia comédias ou cinema. As comédias eram trazidas pelo «Delfim e a sua Troupe», incluindo a mulher, Maria Estrela, que fazia trapézio com movimentos que nos pareciam impossíveis e arriscadíssimos. Um dia caiu mesmo. Mas não foi no Casteleiro. O cinema era projectado na parede branca da casa grande dos Srs. João Rosa e Quim Paiva, em São Francisco. E às vezes nos Italianos, também.

E as brincadeiras dos miúdos?
As raparigas da nossa idade tinham lá as suas bonecas com as quais se entretinham horas e horas e na rua brincavam às danças de roda. Também as víamos a jogar em quadrados desenhados no chão, saltando ao pé-coxinho alternadamente de quadrado em quadrado. Acho que lhe chamavam o jogo do «mata». E jogavam à corda e ao «Ti Limão».

Nós, os rapazes, jogávamos ao pião, corríamos a aldeia de alto a baixo com o arco, íamos para o olival atrás do Sr. Tó Pinto e do Sr. José Mourinha brincar aos canais com regos de água que não sei de onde vinham e com represas de onde «canalizávamos» a água através de gargalos de garrafas partidas. As garrafas dos pirolitos davam ainda os berlindes para jogarmos a tarde inteira se preciso fosse.
A ribeira era naturalmente uma atracção irresistível: andava-se lá a tomar banho toda a tarde em grupos de três ou quatro.
Mas o futebol ou lá o que aquilo era – isso, sim, era o máximo. Podíamos andar quatro ou cinco horas a jogar que ninguém se cansava. Qualquer largo de terra batida nos servia mas o «campo» propriamente dito era no largo em frente do Lar, ao pé da padaria desse tempo.





"Memória", espaço de opinião de autoria de José Carlos Mendes

21/01/2010

Casteleiro: terra de volfrâmio

A «Memória» exige agora que lhes fale de volfrâmio.
Minério na nossa terra? Sim: há 70 anos, a coisa era bastante séria por aqui…
E será que ainda hoje existe? Bom, a primeira coisa a dizer é que sempre houve e ainda deve haver. Só que os dois metais em causa, estanho e tungsténio (volfrâmio), foram muito procurados pelas grandes potências nos anos da Guerra 39-45 – e hoje não têm qualquer valor, aos níveis em que existem e poderiam ser apanhados na nossa zona: não é rentável…
Mas acrescento que o tungsténio é raro no Mundo e que Portugal é dos países onde ele existe.

1
Não sei se todos os leitores estão conscientes de que o Casteleiro desempenhou à sua dimensão um papel interessante na recolha de dois metais importantes no fabrico de armamento na II Guerra Mundial: estanho e, sobretudo, volfrâmio.
Volfrâmio é o nome popular para o tungsténio.
O estanho, além de anti-corrosivo, é usado no fabrico do bronze – que recobre armas expostas às intempéries (as da Marinha e as da beira-mar, por exemplo).
O volfrâmio é muito duro e era usado no fabrico de balas e de canhões.

2
Talvez também não saibam que muitas pessoas (algumas ainda vivas) ganharam muito dinheiro nessa altura a recolher estes metais nas serranias e nas linhas de água a toda a volta da nossa terra.
Já ouvi mesmo dizer que até ouro se encontrou – mas em muito pequenas quantidades.
Depois de recolhido pelos «mineiros», o metal era vendido a intermediários que o vendiam a italianos e a ingleses.
De seguida, ia ser devidamente tratado e separado em pequenas unidades industriais que existiam aqui na região para depois seguir para o seu destino: as grandes fábricas de armamento existentes na Inglaterra e na Alemanha (o metal comprado pelos italianos era para aí encaminhado, visto que estes eram aliados dos alemães nessa guerra).

3
Num próximo artigo, falarei dos locais e do modelo de exploração destes dois metais no Casteleiro, da sua separação e venda e das consequências nos anos finais e seguintes da II Guerra Mundial (1939-1945).
E talvez lhes fale do dia em que uns tipos do Vale de Lobo perderam a cabeça com tanto dinheiro vivo no bolso feito com o dinheiro do volfrâmio…





"Memória", espaço de opinião de autoria de José Carlos Mendes

09/01/2010

A construção da torre do Casteleiro

Esta torre não existia. No topo da Igreja Matriz, o que existia era um campanário muito mais simples e mais baixinho – construído no modelo habitual em todas as Freguesias à data em que fora erigida a Igreja, no fim do século XIX (digamos: em 1890).
O campanário, sem portas, tinha um só sino, como agora na torre, ao contrário do que se conhece de muitas terras: campanários com dois sinos.
No Casteleiro havia outro sino, mais pequeno, uma sineta, mas na Igreja Matriz original: a Capela do Espírito Santo, ao Reduto.
Um aparte: a função do sino numa aldeia era muito importante e não só por motivos religiosos mas também por razões que hoje diríamos de Protecção Civil: quando havia fogo (um incêndio), tocava-se o sino em forma rápida de alarme e era o alerta geral.
Por isso, a grande festa quando, nas vésperas da inauguração da torre nova, o Sr. José Carlos (Mendes Figueiredo), à data Presidente da Junta de Freguesia, escolheu e mandou colocar e experimentar o novo sino (o velho dever ter ido por troca).

O campanário original era tão baixinho e acessível, que os miúdos chegavam a ir para lá brincar. Às vezes até furavam as regras sagradas de não se tocar o sino na Sexta-Feira Santa – e levavam tareia por causa disso…
E acrescento uma nota imaginária, de carácter ecológico: se calhar, era tão baixinho que nem sequer atraía as cegonhas que depois, na minha meninice, nunca deixavam de nos visitar em cada primavera e instalar-se no alto da torre, ao pé do relógio. Coisa que hoje parece que já não fazem, julgo que por causa do aquecimento global – mas podem vir a fazer outra vez. No Fundão, por exemplo, tinham desaparecido e voltaram, para minha delícia de cada vez que ali passo na A23.

Volto à torre.
Dizem-me que sempre fora desejo do Povo ter uma torre maior, com mais dignidade. Uma torre que impusesse o respeito que a terra achava que merecia.
Mas uma torre dessas implicava muito dinheiro.
Era preciso contratar quem a construísse.
Esses pedreiros tinham de vir de fora.
Maior a despesa.
Pois, há cerca de 60 anos, tornou-se realidade esse desejo do Povo da nossa terra: a torre concretizou-se, por negociação feita na altura.
A coisa terá sido falada e negociada ainda no tempo do Senhor Padre Sapinho e acabou por se concretizar e ser inaugurada quando era aqui Pároco o Senhor Padre Campos.

Mas quem, como e porquê fez esta oferta da torre?
Estava-se em 1950.
Daniel Machado já refere no seu livro «Casteleiro», a páginas 151-152, o essencial: foi uma troca.
Parece que nem toda a gente terá estado de acordo, porque o velho campanário era uma relíquia. Mas a conversação fez-se e a torre construiu-se. E lá está ela, altiva e imponente, para os padrões da terra e da época, um orgulho para todos nós. Mandaram-se vir os pedreiros de Alcains, trazidos pelo Sr. Venâncio.
O Povo foi acompanhando a obra magnífica que crescia dia-a-dia e a sua inauguração foi feita em dia de grande festa.

O que é que foi trocado?
A coisa mais importante, pela qual se lutava e até se matava se «necessário» fosse: o direito de passagem.
A situação era a seguinte: estão a ver toda aquela extensão de terras que vai desde as traseiras do Centro Cultural até à Ribeira? Pois isso tudo chama-se «o Alvarcão» e pertencia ao Senhor Manuelzinho Fortuna, que habitava na sua casa grande da rua da Igreja. Mas essas terras tinham um grande senão: é que eram atravessadas pelo Povo para as pessoas acederem aos seus terrenos do outro lado dessa propriedade. Era um vai-vém constante: nesse tempo, toda a gente trabalhava no campo, toda a gente cultivava os seus bocadinhos todos. Portanto, o Alvarcão era devassado, no entender do seu proprietário, que preferiu oferecer a torre a ter de se calar com a passagem permanente de tanta gente pelas suas terras.
A vereda de atravessamento entrava no local exacto onde hoje é o portão de acesso ao que foi um dos mais importantes lagares de azeite do Casteleiro.
Foi pois fechada a dita vereda, que mais parecia um caminho, foi colocado um portão e construído aquele grande muro alto, bem feito, que cerca o Alvarcão todo pelo caminho abaixo até à Ribeira e, depois, já mais baixo, ao longo da Ribeira, para jusante – digamos, na direcção da nascente da Ribeira...
Tudo isso, só possível por troca com a construção da nova torre, nos anos a seguir à 2ª Guerra Mundial.




"Memória", espaço de opinião de autoria de José Carlos Mendes