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20/11/2010

O ritual da matança

Com o inverno a aproximar-se a passos largos, é inevitável que me venha à memória o frio com gelo e vento que se faziam sentir na terra que me viu nascer. Na minha memória já distante, surgem também e por arrastamento, as tradições da época: sim, aquelas que deixaram marcas fortes como os sempre presentes cheiros, a que já aqui me referi. Nesses cheiros estão incluídas as matanças e todo o seu ritual. Sim, porque de um verdadeiro ritual se tratava. Era um dia altamente programado, em sintonia com a família e os amigos. Só depois de acertados todos esses detalhes, se marcava o dia. Não me posso esquecer de referir que o matador estava no topo de todos os interesses do grupo, por razões óbvias, claro! Aprazada a data, a véspera desse dia era o ponto de partida para o acto. Tinha que ficar tudo preparado ao pormenor; desde o alguidar para aparar o sangue, até ao banco onde o pobre berrava sem obter clemência, até à agulha com linha para coser o buraco do facalhão (assisti a este martírio cruel vezes sem conta, assim, sem o mínimo de consciência – hoje juntar-me-ia à liga de protecção dos animais), até ao panal branco que, no fim do sacrifício, tapava o defunto. Vista a esta distância, a luta era cobardemente desigual, sete ou oito contra um, olha lá!....
Bom, mas vamos ao dia seguinte, o dia da matança propriamente dito.
Logo de manhã bem cedo, cinco ou seis da manhã, dependendo de a «pita» ser velha ou nova, acendia-se o lume e punha-se o almoço a cozer. Normalmente e ao mesmo tempo, eram postos mais dois ou três panelões, um com carnes velhas do porco do ano anterior, outro para cozer a couve tronchuda e a indispensável batata. Tudo isto tinha um sabor que ainda hoje sinto nas minhas papilas gustativas. E o cheiro? Hum!... Os cozinhados eram feitos enquanto os homens tratavam de pôr fim ao animal e o deixavam pendurado no chambaril, aberto e limpo de entranhas. O trabalho deles terminava após o almoço, que era servido por volta das dez. Depois de bem comidos e bem bebidos, saíam e deixavam o espaço livre às mulheres a quem a presença deles, diziam, só estorvava.
A partir daí, a matriarca da casa, com a sua sabedoria, comandava com mestria as operações, que, diga-se em abono da verdade, exigiam experiência.
No fim do dia, todas exaustas mas satisfeitas, e já tendo degustado todos os sabores confeccionados, iam descansar com a consciência de que a tarefa estava apenas no princípio. Era a festa da família.
Tradições que apesar de bárbaras, aproximavam as famílias e os amigos, e deixaram saudades do cheiro da morcela e dos cominhos!...





Texto de autoria de Maria Dulce Martins