
Esta torre não existia. No topo da Igreja Matriz, o que existia era um campanário muito mais simples e mais baixinho – construído no modelo habitual em todas as Freguesias à data em que fora erigida a Igreja, no fim do século XIX (digamos: em 1890).
O campanário, sem portas, tinha um só sino, como agora na torre, ao contrário do que se conhece de muitas terras: campanários com dois sinos.
No Casteleiro havia outro sino, mais pequeno, uma sineta, mas na Igreja Matriz original: a Capela do Espírito Santo, ao Reduto.
Um aparte: a função do sino numa aldeia era muito importante e não só por motivos religiosos mas também por razões que hoje diríamos de Protecção Civil: quando havia fogo (um incêndio), tocava-se o sino em forma rápida de alarme e era o alerta geral.
Por isso, a grande festa quando, nas vésperas da inauguração da torre nova, o Sr. José Carlos (Mendes Figueiredo), à data Presidente da Junta de Freguesia, escolheu e mandou colocar e experimentar o novo sino (o velho dever ter ido por troca).
O campanário original era tão baixinho e acessível, que os miúdos chegavam a ir para lá brincar. Às vezes até furavam as regras sagradas de não se tocar o sino na Sexta-Feira Santa – e levavam tareia por causa disso…
E acrescento uma nota imaginária, de carácter ecológico: se calhar, era tão baixinho que nem sequer atraía as cegonhas que depois, na minha meninice, nunca deixavam de nos visitar em cada primavera e instalar-se no alto da torre, ao pé do relógio. Coisa que hoje parece que já não fazem, julgo que por causa do aquecimento global – mas podem vir a fazer outra vez. No Fundão, por exemplo, tinham desaparecido e voltaram, para minha delícia de cada vez que ali passo na A23.
Volto à torre.
Dizem-me que sempre fora desejo do Povo ter uma torre maior, com mais dignidade. Uma torre que impusesse o respeito que a terra achava que merecia.
Mas uma torre dessas implicava muito dinheiro.
Era preciso contratar quem a construísse.
Esses pedreiros tinham de vir de fora.
Maior a despesa.
Pois, há cerca de 60 anos, tornou-se realidade esse desejo do Povo da nossa terra: a torre concretizou-se, por negociação feita na altura.
A coisa terá sido falada e negociada ainda no tempo do Senhor Padre Sapinho e acabou por se concretizar e ser inaugurada quando era aqui Pároco o Senhor Padre Campos.
Mas quem, como e porquê fez esta oferta da torre?
Estava-se em 1950.
Daniel Machado já refere no seu livro «Casteleiro», a páginas 151-152, o essencial: foi uma troca.
Parece que nem toda a gente terá estado de acordo, porque o velho campanário era uma relíquia. Mas a conversação fez-se e a torre construiu-se. E lá está ela, altiva e imponente, para os padrões da terra e da época, um orgulho para todos nós. Mandaram-se vir os pedreiros de Alcains, trazidos pelo Sr. Venâncio.
O Povo foi acompanhando a obra magnífica que crescia dia-a-dia e a sua inauguração foi feita em dia de grande festa.
O que é que foi trocado?
A coisa mais importante, pela qual se lutava e até se matava se «necessário» fosse: o direito de passagem.
A situação era a seguinte: estão a ver toda aquela extensão de terras que vai desde as traseiras do Centro Cultural até à Ribeira? Pois isso tudo chama-se «o Alvarcão» e pertencia ao Senhor Manuelzinho Fortuna, que habitava na sua casa grande da rua da Igreja. Mas essas terras tinham um grande senão: é que eram atravessadas pelo Povo para as pessoas acederem aos seus terrenos do outro lado dessa propriedade. Era um vai-vém constante: nesse tempo, toda a gente trabalhava no campo, toda a gente cultivava os seus bocadinhos todos. Portanto, o Alvarcão era devassado, no entender do seu proprietário, que preferiu oferecer a torre a ter de se calar com a passagem permanente de tanta gente pelas suas terras.
A vereda de atravessamento entrava no local exacto onde hoje é o portão de acesso ao que foi um dos mais importantes lagares de azeite do Casteleiro.
Foi pois fechada a dita vereda, que mais parecia um caminho, foi colocado um portão e construído aquele grande muro alto, bem feito, que cerca o Alvarcão todo pelo caminho abaixo até à Ribeira e, depois, já mais baixo, ao longo da Ribeira, para jusante – digamos, na direcção da nascente da Ribeira...
Tudo isso, só possível por troca com a construção da nova torre, nos anos a seguir à 2ª Guerra Mundial.